Pés de barro

05/09/2009

O GLOBO

Pedro de Camargo Neto

Nos últimos 15 anos, o Brasil se tornou o maior exportador de açúcar, café, carne bovina e de aves, grãos, farelo e óleo de soja, suco de laranja e fumo. Esse importante resultado deve-se a aumentos de produtividade e a alguns avanços institucionais.

A exportação agrícola foi importante elemento na construção da estabilidade econômica conseguida pelo país. O saldo da balança comercial viabilizou as reservas monetárias internacionais.

Houve aumento de produtividade e, em consequência, reduções de custo dos alimentos da cesta básica com reflexos no poder aquisitivo da população e nos índices que medem a inflação.

Os avanços do setor foram grandes e rápidos, porém não acompanhados, na mesma velocidade, pelos instrumentos de política pública. O crédito tem sido uma permanente fonte de problemas. O forte desequilíbrio entre ativos e passivos do produtor, como resultado dos planos econômicos heterodoxos do passado, nunca foi enfrentado. Rolou-se um endividamento crescente com a esperança, ou simplismo, de que o futuro trouxesse a solução.

A atividade, que possui um forte elemento de risco climático, não conta até hoje com seguro. As flutuações de moeda, contexto em que o produtor planta com uma relação cambial e colhe com outra, tiveram sempre difíceis alternativas de equilíbrio financeiro. As consequências somente agravaram a questão do endividamento.

Os avanços nas carnes foram resultado de melhorias na sanidade dos animais, facilitados por problemas nos concorrentes. Saímos de milhares de focos de febre aftosa, no início dos anos 1990, para alguns poucos focos que ainda persistem. Argentina, Uruguai e mesmo Inglaterra tiveram epidemias deste vírus, o que facilitou a abertura de mercados para o Brasil.

Canadá e Estados Unidos enfrentaram a síndrome da espongiforme bovina, tendo sido praticamente excluídos do mercado internacional.

Felizmente, a bovinocultura aproveita a extensão territorial e as pastagens, ficando longe do vetor de transmissão do mal da vaca louca. A biossegurança das granjas avícolas nos deixou de fora dos estragos da influenza aviária, que atingiu concorrentes, o que também facilitou nosso crescimento.

A preocupação e o nível de exigências dos mercados consumidores somente cresceram. Não podemos contar com o infortúnio do concorrente para garantir nosso futuro.

A bovinocultura foi praticamente excluída do mercado europeu com gravíssimo prejuízo pelo fato de o governo ter prometido e não cumprido um controle burocrático do rebanho.

Começamos a assistir às ameaças que supostas ou verdadeiras preocupações ambientais podem trazer. O tema do bem-estar animal, válido, porém nem sempre corretamente apresentado, está chegando.

Individualmente , produtor e agroindústria já mostraram sua competência.

Nas ações, obrigatoriamente coletivas ou públicas, temos mostrado grandes dificuldades.

A posição de maior do mundo trouxe um aumento de responsabilidade que não conseguimos ainda equacionar.

O serviço público, necessário para garantir as novas exigências, não conta com o número de profissionais necessário. As normas regulatórias estão décadas ultrapassadas. O avanço certamente exigirá redistribuição de responsabilidades entre o público e o privado, regulamentos modernos e serviços públicos e coletivos eficientes e responsáveis.

O Brasil avançou. O setor agrícola foi parte importante. Os desafios somente cresceram e, infelizmente, o debate sobre o futuro não foi iniciado.

Carne Suína Brasileira

Opinião

O desafio de ampliar o mercado externo

A cadeia suína brasileira, com 30 milhões de cabeças, produção de 3 milhões de toneladas de carne, geração de 630 mil empregos diretos e indiretos, é uma importantíssima atividade econômica.

Mais sobre Carne Suína

Carne Suína Abipecs no Twitter