A Crise da Suinocultura

08/07/2011

Revista Nacional da Carne
Artigo de Pedro de Camargo Neto

A crise conjuntural que o setor enfrenta é reflexo de um desajuste entre oferta e demanda com o agravante da alta do preço do milho, prin­cipal insumo. A oferta, em 2011, é superior à do ano passado. Avaliamos, preliminarmente, que o número de animais abatidos tem crescido entre 1% e 1,5%, na comparação com 2010. O peso médio dos animais, porém, está cerca de 3% superior ao de 2010, como reflexo de aumentos de produtividade e eficiência. Temos, portanto, uma oferta de carne suína superior a 4% em relação à do ano passado.

Já a demanda interna apresenta desaquecimento, difícil de ser medido com exatidão. Mas podemos afir­mar que, claramente, a demanda por produtos indus­trializados caiu, sendo que algumas linhas de produtos experimentam forte declínio. O desaquecimento da economia, objeto da política macroeconômica atual, atingiu a suinocultura diretamente.

A demanda externa também caiu cerca de 4%. Ex­portamos, de janeiro a maio de 2010, 222 mil toneladas, em comparação a 214 mil t no mesmo período de 2011. Infelizmente, as exportações de carne suína continuam muito concentradas em poucos países. Não conseguimos ainda abrir os principais mercados. Dos quatro maiores importadores, somente vendemos para um, a Rússia. Falta abrir os mercados do Japão, da Coreia do Sul e do México. Observo que a crise atual ainda não é reflexo do embargo sanitário imposto recentemente pela Rússia a três Estados – Rio Grande do Sul, Paraná e Mato Grosso.

 

Na primeira quinzena de junho, ocorreu mesmo uma antecipação de embarques, antecedendo o fechamento do mercado russo ocorrido no dia 14 daquele mês.

 

Acredito que o embargo russo será rapidamente resolvido, pois, finalmente, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) entregou à autoridade sanitária russa as informações solicitadas, apesar de isso ter acontecido com significativo atraso.

 

Destacamos que crises conjunturais de excesso de oferta e pouca demanda ocorrem periodicamente. A atual crise, porém, possui o agravante da elevada alta dos preços do milho – mais de 40% – frente a um aumento de 10% na cotação do suíno. Esse desequilí­brio exige providências urgentes por parte do governo federal, a fim de se evitar a inadimplência e a saída de produtores do setor.

 

A política do milho precisa ser pensada, com prioriza­ção da oferta para os setores de proteína animal. Preocupa­-nos os limitados estoques oficiais, bem como percalços climáticos na produção desse importante insumo.

 

É muito importante que exista amplo apoio governa­mental neste momento, pois a suinocultura está prestes a entrar em etapa de crescimento com a abertura de novos mercados externos. Na recente visita à China realizada pela presidente Dilma Rousseff, o mercado foi aberto, e esperamos para breve a abertura do Japão e da Coreia.

 

Na linha da demanda interna, precisamos continuar a trabalhar junto às grandes redes de varejo, as quais se valem de margens de venda na carne suína superiores às de outras proteínas. Os varejistas impõem margens superiores para compensar vendas menores; estas ocorrem porque as margens são superiores – é preciso quebrar este ciclo nefasto.

 

Na linha da demanda externa, é preciso garantir prioridade para os processos de abertura de novos mercados. Precisamos reconfirmar a vinda de missão veterinária do Japão para o próximo mês de agosto. É necessário, também, concluir o processo de abertura do mercado da Coreia do Sul. Nesse contexto, é urgente que o Mapa ofereça prioridade às questões sanitárias, evitando atraso nas respostas a questionamentos como o que ocorreu recentemente com a Rússia.

 

A crise atual é forte, porém, o futuro é promissor. A suinocultura precisa do apoio de todos, principalmente da Câmara dos Deputados, que sempre nos apoiou.