Mirante monetário

26/04/2010

O Globo
Pedro de Camargo Neto

A visão da paisagem depende da localização do mirante. Mais do alto ou mais de baixo, do lado esquerdo ou do direito, o que se observa no horizonte é diferente. Infelizmente, o mirante dos responsáveis pela política monetária fica no coração do sistema financeiro.

A produção enxerga uma paisagem macroeconômica diferente. Não se trata de questionar fundamentos da teoria econômica.  É o ângulo de visão que é diferente, enxergando caminhos alternativos para o futuro.

Houve muito progresso na condução da política macroeconômica no Brasil. Saímos do caos da hiperinflação, do descontrole orçamentário e da ausência de moeda e atingimos uma década de estabilidade e crescimento econômico. Certamente, isso exigiu criatividade, competência e vontade política dos responsáveis para chegarmos até aqui. Passa do momento, porém, de a visão do futuro ter outra amplitude.

Responsabilidade fiscal, política monetária com metas de inflação, superávits comerciais criaram as condições para o sucesso do presente. É preciso valorizar o passado, porém, entender que o presente apresenta desafios diferentes.

Expectativas inflacionárias deste momento são fundamentalmente diferentes do enfrentado no passado. O remédio fácil do aumento de juros não é o mais adequado para preparar o futuro.

O aumento de juros parte do processo inflacionário. Parece-nos, porém, que neste momento seu efeito refletirá unicamente em pequeníssima parcela de preços da economia. A maior parte dos preços, cuja estatística mede a inflação, está fora do alcance do amargo remédio do aumento de juros.

Juros não têm influência em preços administrados ou de serviços. Pouco fazem nos reflexos de efeitos climáticos ou sazonais. Certamente, é um instrumento imperfeito. Imaginar que represente controle adequado para as variações da estatística, neste momento, é um simplismo injustificável para o grau de sofisticação e competência que alcançamos. Aparentemente, do ponto de visão do mirante financeiro não se enxerga este ângulo.
 
É preciso avançar e sairmos do simplismo do aumento de juros, pois os efeitos colaterais negativos são hoje maiores do que os benefícios. É preciso compreender a evolução da economia, criando instrumentos que permitam acelerar o crescimento sem perder a estabilidade conquistada.

Do mirante financeiro, aumento de juros é sempre bom, aliás, muito bom, haja vista a espetacular lucratividade do setor.  O crescimento econômico sustentado exige, porém, maior criatividade e competência do que este remédio simplista. Está na hora de descerem do mirante e buscarem outros ângulos para a visão do crescimento econômico futuro.

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