Carne suína fora da África do Sul. Por quê?

19/02/2010

Feed&Food

Vitor Quartezani

Nas últimas semanas, muito se tem falado a respeito da retomada de importação da carne bovina brasileira pela África do Sul. Porém, se sabe que a carne suína embargada pelo mesmo motivo em 2005, com o surto de febre aftosa no Brasil, continua suspensa nesse mercado. Perante esse quadro, qual a posição do setor de carne suína?

Para esclarecer essa questão, a feed&food entrevista com exclusividade o presidente da Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína (Abipecs, São Paulo/SP) Pedro de Camargo Neto, que fala sobre como o setor vem reagindo a esses acontecimentos e quais as medidas tomadas para que esse panorama possa mudar.

feed&food - Qual a sua avaliação sobre a volta da exportação de carne bovina brasileira para a África do Sul, enquanto a suína continua na espera? O que a Abipecs está fazendo quanto ao assunto e quais as medidas necessárias para que esse cenário comece a mudar?

Pedro de Camargo - Externamos nosso profundo desagrado à maneira como o governo da África do Sul está tratando o setor de carne suína junto ao governo federal. Certamente, se encontra em desacordo com os princípios de respeito mútuo que deveriam existir entre países que se propõem a ter estreita relação de aliança e amizade.

As exportações de carne suína estavam crescendo, apresentando excelentes perspectivas para o futuro. Infelizmente, o aparecimento de foco de febre aftosa em bovinos, no final de 2005, interrompeu o fluxo comercial em virtude de embargo sanitário. Inúmeros países fizeram o mesmo, porém, todos eles, sem exceção, voltaram à normalidade em cerca de um ano. Então, qual o motivo para que a África do Sul mantenha o embargo? Ou o governo expõe ao alto escalão o que as autoridades sanitárias estão fazendo ou nunca resolveremos essa questão. O ministro do Comércio da África do Sul, Rob Davies, acompanhado do ministro da Agricultura, visitará o Brasil no mês que vem. Esse é o momento do governo brasileiro exigir respeito.

Você declarou ao jornal Folha de S. Paulo que a carne suína foi vítima da bovina devido à febre aftosa em 2005. Você confirma essa afirmação? Na época foi mesmo necessário o embargo à carne suína também?

A epidemiologia da febre aftosa na América do Sul demonstra que a doença está atrelada aos bovinos. Não temos focos em suínos há quase 20 anos. Nem mesmo nas propriedades onde os bovinos foram infectados. Todo programa de erradicação da febre aftosa baseado na regionalização tem foco nos bovinos. Suínos sequer são vacinados. A Organização Mundial de Saúde Animal (OIE), não diferencia espécie, ignorando a questão. Provamos isto com estudo de análise de risco que pode ser encontrado no site da Abipecs. O embargo poderia ter ocorrido dentro das regras da OIE, o que já era ruim, porém a África do Sul foi muito pior.

Outros mercados

Com relação às cotas da Rússia, este ano elas podem aumentar significativamente?

O dia em que a Rússia decidir, de fato, entrar na OMC, o Brasil poderá exigir que a distribuição das cotas aconteça sem discriminação geográfica. Até lá, teremos que conviver com o atual sistema.

No jornal Zero Hora da semana passada o senhor disse ser comum a Rússia suspender temporariamente a compra de carne suína de frigoríficos brasileiros. Poderia explicar melhor essa afirmação e o “porquê”?

A Rússia implantou um sistema de análise de resíduos e outras substâncias na chegada da carne. Analisam amostras de tudo o que entra. Quando encontram alguma anormalidade, informam o estabelecimento. Na reincidência, desabilitam a unidade até receberem informações que reconquistem a confiança. Isso tem ocorrido há dois anos. Entram e saem plantas.