Combinação perversa

13/01/2010

Suinocultura Industrial
Rodolfo Antunes

Crise e câmbio minam rentabilidade das exportações brasileiras de carne suína em 2009. Setor fecha o ano com exportações estáveis em volumes, mas com queda de 23% na receita. Desempenho no mercado doméstico foi “alento” para o setor.

A queda abrupta das exportações brasileiras nos últimos dois meses de 2008 já prenunciava o que poderia acontecer em 2009. Abalados pelos efeitos da recém deflagrada crise econômica, os embarques de carne suína se retraíram e os preços pagos pelo produto brasileiro despencaram. Ainda nebuloso, o cenário indicava que 2009 seria um ano difícil para o setor suinícola de exportação. E realmente foi.
Pressionados, sobretudo, pelos impactos provocados pela instabilidade da economia global, os preços da carne suína registraram forte queda no mercado internacional em 2009. A crise reduziu a demanda mundial por carnes e afetou importantes mercados, dificultando o fluxo de comércio entre os países. O setor sofreu ainda com a valorização cambial e encontrou dificuldades para abrir novos mercados. Neste cenário adverso, o setor suinícola de exportação fecha o ano com volumes estáveis, mas com forte retração na receita.
Segundo projeções da Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína (Abipecs), as exportações brasileiras devem atingir cerca de 600 mil toneladas, marca ligeiramente superior a registrada no ano passado, que foi de 529 mil toneladas. Já a receita deve chegar a US$ 1,18 bilhão, valor 23,20% inferior ao registrado em 2008. “Foi um ano complicado. Os preços em dólares no mercado internacional caíram muito e a forte valorização da moeda brasileira comprometeu nossa competitividade e nossos ganhos”, comenta Pedro de Camargo Neto, presidente da Abipecs. “A abertura de novos mercados para a carne suína brasileira seguiu em ritmo lento e o acesso a vários mercados, que dávamos como certo, não aconteceu”, conclui.
 
Crise de preços
A acentuada desvalorização do preço dos produtos suinícolas no mercado externo foi a principal marca de 2009. Neste ano, o preço médio da carne suína brasileira no mercado internacional sofreu um recuo de cerca de 30% em relação a 2008, caindo de US$ 2,82 naquela ocasião, para US$ 1,98 neste ano.
Alguns motivos ajudam a entender essa queda de preço. Em primeiro lugar, estão os efeitos da crise financeira global. A turbulência econômica comprometeu a demanda mundial por carne suína em boa parte do ano. Afetou também o fluxo de comercialização do produto. Por falta de liquidez, importantes países importadores tiveram dificuldades para realizar suas compras. Rússia e Ucrânia, por exemplo, devido à falta de crédito, encontraram problemas para financiar suas importações.
A produção de alguns grandes players do mercado de carne suína também aumentou em 2009. A China, por exemplo, conseguiu superar seus problemas sanitários e deve produzir neste ano cerca de 48,5 milhões de toneladas de carne suína, contra 46,2 milhões de toneladas em 2008. O Brasil foi outro que ampliou sua produção. O aumento de produtividade zootécnica dos plantéis brasileiros vai elevar em 7% a produção do setor. Em 2009, o Brasil deve produzir 3,19 milhões de toneladas de carne suína, ante 3,02 milhões de toneladas em 2008.
 
H1N1 e real forte
O surgimento da gripe A(H1N1) também contribuiu para tumultuar o comércio mundial de produtos suinícolas. Logo após o surgimento da doença, vários países restringiram a entrada de carne suína em seus mercados. Entre eles, grandes consumidores do produto.
O caso mais emblemático foi o da China, que alegando motivos de segurança alimentar, impediu a entrada da carne norte-americana no país. “Alguns países usaram esse pretexto para barrar a entrada de carne suína. O pouco que deixou de ser exportado pelos EUA, por exemplo, já desequilibrou o mercado norte-americano”, afirma Camargo Neto. Segundo ele, o surgimento da doença não repercutiu nas exportações brasileiras. “Felizmente escapamos de qualquer impacto”, diz.
Mas se por um lado o setor suinícola brasileiro não padeceu dos reflexos causados pela gripe A, por outro teve que lidar com uma distorção que minou sua rentabilidade. A forte apreciação do real frente ao dólar, verificada ao longo do ano, reduziu a competitividade das empresas brasileiras em relação aos seus principais concorrentes. O real forte fez o Brasil perder espaço para outros exportadores de carne suína. Em alguns mercados (e em alguns cortes) o preço do produto brasileiro esteve mais alto quando comparado aos produzidos na União Europeia (UE), Canadá e EUA. “O câmbio teve efeitos devastadores sobre o desempenho do setor. Combinados, a valorização cambial e os baixos preços internacionais, significaram prejuízos para todos”, comenta Camargo Neto.
 
Acesso a mercados
O Brasil encontrou dificuldades para acessar novos mercados em 2009. Ao longo do ano passado, a Abipecs liderou junto às autoridades brasileiras um intenso trabalho voltado à conquista de novos destinos para a carne brasileira. Missões de vários países estiveram no País e o setor esperava colher os frutos desse trabalho já em 2009. As coisas, no entanto, não caminharam como o esperado. O ritmo dos entendimentos foi lento. Negociações adiantadas emperraram.
Os EUA são um exemplo representativo do que aconteceu. Em 2008, o país havia enviado ao Brasil uma missão sanitária para coletar informações e realizar análise de risco. Os técnicos da APHIS – autoridade sanitária dos EUA - saíram do País bem impressionados. Clifford M. Sobel, embaixador dos EUA no Brasil, chegou a comentar que a visita tinha sido um sucesso e que o acordo entre os países era iminente. O processo de abertura, entretanto, empacou. “O processo encontra-se paralisado, em clara demonstração de falta de prioridade do governo norte- -americano às demandas do Brasil”, comenta Camargo Neto. Segundo ele, insistentes reclamações do governo brasileiro e da Abipecs, realizadas em Washington e junto à Organização Mundial do Comércio (OMC), em Genebra, pedindo o correto andamento do processo burocrático, têm sido ignoradas pelos norte-americanos.
Outro caso semelhante é o do Japão. O País encaminhou em novembro de 2008 um questionário para avaliar as condições sanitárias do Brasil. De olho no maior mercado importador de carne suína do mundo, a Abipecs pressionou o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) para que o documento fosse enviado o mais rápido possível. Em março deste ano o questionário foi entregue às autoridades sanitárias japonesas.
Ocorre que o relatório chegou em Tóquio e parou. Ninguém sabe o que aconteceu. A informação que se tem é que as autoridades japonesas vêm encontrando dificuldades na análise técnica do documento. A Abipecs já tentou, sem sucesso, agendar uma reunião para resolver o impasse. ”Conseguir entender o que está acontecendo é uma grande prioridade da Abipecs”, diz Camargo Neto.
 
Burocracia chinesa
A abertura do mercado chinês era dada como certa pela Abipecs. A China
realizou missão veterinária no País em novembro de 2008 e o Ministério da Agricultura havia encaminhado para lá informações detalhadas de 24 frigoríficos. O Brasil vinha intensificando seus esforços para garantir acesso ao mercado chinês. Há anos os dois países ensaiavam uma aproximação comercial. Os entendimentos seguiam em ritmo convincente. Embora a conhecida burocracia chinesa se constituísse num obstáculo, acreditava-se que a visita do presidente Lula à Pequim fosse suficiente para garantir o acesso da carne suína brasileira àquele mercado.
Não foi o que aconteceu. A China continua fechada para a carne suína brasileira. O serviço sanitário chinês quer mais informações sobre os abatedouros brasileiros. “Fizemos grandes esforços e nada aconteceu. Talvez o Brasil tenha entrado com uma pretensão comercial com a China que não tínhamos condições de ter”, avalia o presidente da Abipecs. “Mas nosso trabalho continua. A China é um mercado que não pode ser menosprezado”, completa.
O México é outro país que parece postergar, indefinidamente, a promessa de promover missão veterinária no Brasil. A Sagarpa – serviço sanitário mexicano – tem se recusado a realizar análise técnica dos produtos brasileiros. A Abipecs considera que a postura das autoridades sanitárias mexicanas fere as regras estabelecidas pela OMC. “O México se utiliza de barreira sanitária ilegal, impedindo a participação do Brasil no seu mercado”, queixa-se Camargo Neto. As irregularidades praticadas pela Sagarpa foram tantas, que o Brasil já solicitou a mediação do presidente do Comitê de Assuntos Sanitários da OMC. O pedido é o primeiro passo para a criação de um eventual contencioso.
 
Desrespeito às regras
O México está entre os maiores importadores de carne suína do mundo. O país compra metade do que consome – algo ao redor de 400 mil toneladas por ano – pois sua produção não consegue atender a demanda doméstica. Seu mercado, no entanto, é reservado aos EUA. Nem mesmo a visita do presidente do México, Felipe Calderón, que veio ao Brasil para ampliar a cooperação comercial entre os países, foi capaz de reverter essa situação. “Os produtores brasileiros se sentem revoltados com a maneira com que têm sido tratados”, afirma Camargo Neto.
Outro país que desrespeita as regras da OMC e mantém seu mercado fechado para a carne suína brasileira é a África do Sul. O país suspendeu suas importações devido ao foco de febre aftosa em Eldorado (MS) em outubro de 2005. Várias missões brasileiras já foram ao país para tentar levantar o embargo, mas os sul-africanos resistem em reconhecer a sanidade do Brasil. “Essa anormalidade torna-se inconcebível diante da propalada boa amizade entre os dois países e seus presidentes”, afirma Camargo Neto. “Não estamos sendo levados a sério. O serviço sanitário da África do Sul desrespeita as autoridades sanitárias do Brasil e não acontece nada. O governo brasileiro parece não se dar conta desse desrespeito”, queixa-se.
 
Novos mercados
Mas nem tudo foram obstáculos no caminho do setor suinícola de exportação. Apesar da crise de preços e da sobrevalorização do câmbio, o Brasil conseguiu encontrar bom trânsito para seus produtos no mercado internacional.
O setor ampliou seus embarques para tradicionais compradores e para os países africanos (veja box). No caso mais expressivo, o Brasil conseguiu elevar em 289% suas remessas para a Namíbia nos dez primeiros meses do ano. Dois novos mercados se abriram para a carne suína brasileira em 2009: o filipino e o vietnamita. Embora pequeno, o mercado das Filipinas é importante, pois sua abertura significa referência aos demais países asiáticos. Já o Vietnã, grande consumidor de carne suína, produz a maior parte das 2,5 milhões de toneladas que consome, mas passou a importar pequenas quantidades recentemente. Estimativa da FAO indica que o país vai importar cerca de 30 mil toneladas neste ano. “Embora pequenos, os mercados das Filipinas e do Vietnã, são razoáveis”, avalia Camargo Neto.
A relação com a Rússia também avançou em 2009, embora menos que o desejado. O Brasil conseguiu reverter, mesmo que parcialmente, o revés sofrido no ano passado. Em 2010, o País vai recuperar o espaço perdido para os EUA e a UE no regime de cotas de importação de carnes russo. “O resultado não é o que queríamos, mas o sistema de cotas anunciado para 2010 é semelhante ao de 2008. O Brasil não foi o grande perdedor desta vez”, pondera Camargo Neto.
O setor defende – e tem recebido apoio do governo – que a Rússia passe a administrar suas cotas sem privilegiar este ou aquele país. Por esse sistema, deixariam de existir cota para os EUA e para a UE, por exemplo. O montante total das cotas seria distribuído dentro do que no jargão da OMC se chama “nação mais favorecida”, isto é, com base na melhor oferta. “Ainda não conseguimos avançar a esse ponto. Talvez as reivindicações brasileiras possam ser melhor discutidas após o ingresso da Rússia na OMC”, avalia o presidente da Abipecs.
 
Missões oficiais
Algumas missões oficiais estiveram no Brasil em 2009. Técnicos da União Europeia realizaram, em outubro, uma visita veterinária em Santa Catarina. De acordo com Camargo Neto, informações preliminares, de caráter não oficial, dão conta de que as impressões foram positivas. “A visita dos europeus, por si só, já foi um passo à frente. Não representou nenhum embarque, não há nenhum certificado sanitário assinado, mas o fato de eles terem vindo e ter corrido tudo bem é um avanço relevante”, diz o executivo.
Segundo Camargo Neto, cabe agora às autoridades brasileiras garantirem a rápida tramitação desse processo e pedir urgência na visita já solicitada pelo Mapa aos Estados do Rio Grande do Sul e Paraná. “Ambos estão preparados para receber a missão europeia”, afirma o presidente da Abipecs.
A grande surpresa do ano ficou por conta da visita dos técnicos sul-coreanos. Inesperada, a missão esteve no Brasil realizando inspeção de reconhecimento do sistema sanitário do setor suinícola de Santa Catarina. Há vários anos o Brasil tenta viabilizar o acesso ao mercado de suínos da Coreia do Sul. A relação entre os dois paises nessa área é conflituosa. Os sul-coreanos sempre dificultaram o entendimento. Para se ter uma ideia, somente no ano passado, foram realizadas cinco reuniões no âmbito do SPS (Acordo Sanitário e Fitosanitário) da OMC, dois encontros em Seul, além de várias discussões nas embaixadas dos dois países. Dada a situação, a Abipecs chegou até a solicitar ao Itamaraty o início de consultas no âmbito do mecanismo de solução de controvérsias da OMC, visando eventual contencioso. “A visita da missão da Coreia é o primeiro passo para o acesso ao mercado sul-coreano”, afirma Camargo Neto. “Mas ainda é prematuro fazer qualquer prognóstico de abertura. Precisamos aguardar o relatório deles”, comenta.
 
2010: ano melhor
Camargo Neto demonstra um otimismo contido ao fazer projeções sobre a participação da suinocultura brasileira no mercado externo no próximo ano. O executivo acredita no incremento das exportações brasileiras em 2010, mas adverte que sem mudanças no câmbio a rentabilidade do setor continuará sendo prejudicada.
Segundo Camargo Neto, a recuperação da economia mundial deve se refletir positivamente no mercado internacional de carne suína, restabelecendo a demanda, normalizando o fluxo de comercialização e valorizando os preços dos produtos. “Os efeitos da crise financeira mundial estão se diluindo e a demanda deve voltar a crescer no próximo ano, sobretudo nos países emergentes”, explica. “Os excedentes exportáveis dos EUA, Canadá e UE também estão menores. Esses dois fatores devem elevar os preços internacionais em 2010”, avalia o presidente da Abipecs.
A revisão no sistema de cotas da Rússia – que garantiu espaço maior para o Brasil – e a abertura dos mercados das Filipinas e do Vietnã também devem sustentar a ampliação das vendas externas do setor suinícola.
Camargo Neto também aposta na abertura de novos mercados para a carne suína brasileira. “Não é possível que não consigamos abrir novos mercados, até pelo trabalho que vem sendo feito nos últimos anos”, afirma. O presidente da Abipecs acredita no avanço dos entendimentos com os EUA e na abertura do mercado europeu já no primeiro semestre.
O único senão fica por conta do câmbio, segundo Camargo Neto, o grande desafio macroeconômico do País em 2010. “A política cambial brasileira é de uma época em que o Brasil precisava atrair recursos externos. Hoje ocorre justamente o contrário. É preciso corrigir essa distorção”, afirma o presidente da Abipecs.
 
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Mercado interno forte
O desempenho da suinocultura no mercado interno foi o grande atrativo deste ano. Com produção maior e exportações estáveis, o setor chega ao fim de 2009 sem estoques. O equilíbrio se deve ao bom consumo de carne suína no mercado doméstico durante o ano. Segundo estimativa da Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína (Abipecs), o consumo per capita de carne suína deve chegar a 13,9 por habitante ao ano no Brasil em 2009, contra 13,2 quilos em 2008. “O mercado interno nos salvou em 2009. Com as exportações estáveis, tudo o que produzimos a mais foi consumido internamente”, afirma Pedro de Camargo Neto, presidente da Abipecs. A melhora da produtividade zootécnica do rebanho brasileiro fez a produção nacional crescer 7% em 2009. Neste ano, a suinocultura nacional deve produzir 3,19 milhões de toneladas, contra 3,02 milhões de toneladas em 2008. Segundo a Abipecs, o mercado interno vai absorver este ano quase 100 mil toneladas a mais. Em 2009 o consumo doméstico atingirá 2,59 milhões de toneladas, ante os 2,49 milhões de toneladas registrados no ano passado.
 
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Principais destinos
A Rússia segue como o principal destino das exportações brasileiras de carne suína. Sua participação que vinha encolhendo nos três últimos anos, no entanto, voltou a crescer. No ano passado, o mercado russo respondeu por 42,65% dos embarques brasileiros. Em 2009 esse percentual deve fechar em 44%. Entre janeiro e outubro deste ano o setor suinícola enviou para a Rússia 228.587 toneladas de carne suína. O segundo posto é ocupado por Hong Kong. Grande importador de carne suína, pelo terceiro ano consecutivo o país asiático amplia suas compras no Brasil. Nos dez primeiros meses de 2009 o Brasil enviou para Hong Kong 101.249 toneladas, volume que corresponde a uma participação de 19,78% nas exportações do setor. Com um leve recuo em sua participação em 2009, a Ucrânia continua sendo o terceiro maior mercado para a carne suína brasileira. Entre janeiro e outubro o país respondeu por 9,86% dos embarques brasileiros ao importar 50.465 toneladas do Brasil. Cingapura, com participação de 4,68%, Angola com 4,66% e Argentina com 4,54% completam a lista dos principais destinos da carne suína brasileira em 2009.