Câmbio atrapalha, mas País deve manter liderança em carnes

30/12/2009

Cruzeiro do Sul

Apesar de a recuperação da demanda externa por carnes se recuperar de forma mais lenta do que o esperado inicialmente, há otimismo em relação a 2010 entre os agentes do setor. Para representantes da indústria, associações e analistas, é possível que as exportações retornem a níveis pré-crise no próximo ano, pelo menos em volume. Quanto à receita, o câmbio apreciado deve dificultar uma retomada mais significativa. Mas o dólar baixo, que em alguns momentos de 2009 chegou a ameaçar a excelência brasileira no segmento de aves, não deve ser suficiente para afetar a competitividade do País a ponto de retirá-lo da primeira posição como maior fornecedor mundial de carne de frango e bovina.

A disponibilidade de recursos naturais para expansão da agropecuária e o baixo custo dessa atividade no País sustentam a competitividade da indústria de carnes nacional. Especialistas e agentes do setor são unânimes ao afirmar que, com uma taxa de câmbio mais favorável às exportações, o desempenho do setor poderia ser melhor, com uma rentabilidade mais elevada. Mas um dólar baixo não deixa o Brasil fadado ao fracasso. O problema, apontam, é a volatilidade do câmbio. A partir do momento em que a taxa se estabilizar, ainda que em um patamar baixo, os produtores terão condições de se ajustar à nova realidade de produção.

"A competitividade do Brasil não está lastreada no nível do câmbio. Em boa parte dos anos de 2007 e 2008, estivemos com um câmbio muito próximo ao que estamos hoje. O problema é quando o movimento ocorre de maneira muito rápida", afirma o diretor Financeiro e de Relações com Investidores da BRF-Brasil Foods, Leopoldo Saboya. "Temos disponibilidade de matéria-prima, espaço para crescer e não temos problemas de sanidade. Esse é o contexto geral da nossa competitividade. Não é o câmbio quem vai mudar estruturalmente o quadro competitivo."

O executivo admite que o atual patamar do câmbio pode ter deixado o frango norte-americano mais competitivo, mas isso não significa que os Estados Unidos roubarão espaço significativo do Brasil no comércio mundial dessa proteína. "Eles não estão focados para isso", diz o presidente da Sadia, Julio Cardoso. Apesar de não apostar em um crescimento muito rápido das exportações norte-americanas, até por conta do tamanho daquele mercado doméstico, Cardoso afirma que a competitividade brasileira pode, sim, estar ameaçada. "Nunca se viu uma situação tão complicada em termos de lucratividade", diz.

O presidente da Associação Brasileira dos Exportadores de Frango (Abef), Francisco Turra, também apresenta uma visão menos otimista para 2010, apesar de apostar em crescimento do setor. "Continuo achando que o Brasil pode perder um espaço precioso conquistado a duras penas. Mesmo que você continue na liderança (como exportador), permanecer líder com o mercado sem rentabilidade, ou com baixa rentabilidade, é triste", afirma. Hoje, o Brasil responde por 41% do comercio mundial de carne de frango, ante 37% dos Estados Unidos.

Turra evita conceder estimativas para crescimento do volume de vendas no próximo ano, mas atrela uma retomada mais significativa a uma mudança na taxa de câmbio. "Se tivermos um real menos agressivo perante todas as moedas, poderemos retomar o crescimento médio dos últimos oito anos até 2008", diz. A taxa média de crescimento dos últimos oito anos, até 2008, foi de 11% em volume e de 15% em receita. "Para conquistar um mercado é muito complicado. Para perder e reconquistar, é mais complicado ainda."

No segmento de carne bovina, há mais otimismo, inclusive em relação ao comportamento da taxa de câmbio. "Tenho certeza de que novas medidas cambiais poderão ser tomadas no Brasil. Acredito que a taxa de câmbio retorne ao patamar de R$ 2,00 em 2010", diz o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), Roberto Gianetti da Fonseca, que é economista especializado em comércio exterior. "O Brasil deve seguir se consolidando como maior exportador de carne bovina em relação aos concorrentes", acredita o presidente do frigorífico Minerva, Fernando Galletti de Queiroz. Ele observa que a desvalorização do dólar acontece em relação às moedas da maioria dos países em desenvolvimento, o que minimiza os efeitos do câmbio sobre a formação dos preços.

Outro ponto que deve garantir a liderança brasileira nas exportações de carne bovina é a limitação de aumento de produção em demais países produtores. "O mundo já está numa dependência muito grande da carne bovina brasileira, que responde de 30% a 33% do mercado mundial", afirma o analista Fabiano Tito Rosa, da Scot Consultoria. "Estando ela mais competitiva ou menos competitiva, não dá mais para abrir mão da carne brasileira", diz.

BOVINOS

A perspectiva de recuperação dos países desenvolvidos e, como consequência, do nível de emprego e renda deve melhorar o nível de demanda na União Europeia, Estados Unidos e Japão, países que mais sofreram os efeitos da crise econômica internacional. A impossibilidade de expansão da oferta local na Europa deve resultar em um aumento das importações brasileiras, beneficiadas também por um número cada vez maior de fazendas habilitadas a exportar para a União Europeia. Giannetti lembra que em 2009 diversas missões europeias estiveram no Brasil para avaliar a qualidade do rebanho brasileiro.

Nos emergentes, especialmente asiáticos e países do Oriente Médio, a expectativa também é de continuidade do aumento na procura por carne bovina. O aumento da renda verificado nessas nações e a migração da população para áreas urbanas fará com que o consumo de proteína animal apresente expansão. Rosa, da Scot, explica que a demanda por carne bovina é mais elástica em relação ao nível de renda e, portanto, deve ser beneficiada em um cenário de recuperação econômica.

Queiroz, do Minerva, observa que existe uma incapacidade de expansão na Austrália e Uruguai, outros grandes exportadores de carne bovina, e a instabilidade política na Argentina está tirando o país da posição de um dos maiores players mundiais de carne bovina. "A Argentina pode se tornar importadora de carne bovina no próximo ano, algo que não acontecia desde 1800 e pouco", complementa o analista da Scot. Segundo relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês), as exportações brasileiras de carne bovina devem crescer 20% em 2010, em volume. "Vamos atingir níveis parecidos com os de 2008, se não em preço, em volume com certeza", garante Gianetti, da Abiec.

FRANGO

"O cenário ainda é bastante desafiador e provavelmente continuará no início do ano. Mas, ao longo de 2010, será possível aumentar em volume." Essa é a visão sintetizada do diretor de Relações com Investidores da Marfrig Alimentos, Ricardo Florence, sobre o mercado internacional de carne de frango. "A recuperação é lenta na mesma medida em que é lenta a retomada dos nossos consumidores, que ainda não saíram da crise", afirma Turra, da Abef.

Segundo o presidente da BRF, José Antonio do Prado Fay, a principal preocupação da empresa, neste momento, é com o mercado europeu. "A região ainda não deu sinal positivo e talvez seja a que vai levar mais tempo para se recuperar", diz. No Japão, o executivo já observa estoques menores, circunstância que deve ser verificada na Rússia no primeiro semestre. Para os emergentes, assim como no segmento de bovinos, as perspectivas são mais positivas.

A flexibilização das condições comerciais em mercados relevantes, segundo Turra, pode contribuir com um novo fôlego às exportações em 2010. O presidente da Abef cita como possíveis acontecimentos relevantes do próximo ano a redução da tarifa de importação pela Índia, que hoje é de 100%, e do México, atualmente entre 100% a 230%, além da abertura dos mercados da Indonésia, Malásia e Paquistão.

SUÍNOS

A abertura de mercados deve pautar o comportamento das exportações de suínos no próximo ano. Segundo o presidente da Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína (Abipecs), Pedro de Camargo Neto, a expectativa é de que a União Europeia abra seu mercado para o Brasil ainda no primeiro semestre de 2010 e que os Estados Unidos publiquem em breve a análise de risco para importação do produto. Missões dos dois países estiveram no País e, segundo Camargo, aprovaram as condições sanitárias.

O acesso ao Japão e à Coreia é aguardado para a segunda metade do ano. "O Japão é o mercado dos sonhos, estamos trabalhando para que isso aconteça. A meta é terminar 2010 com esses mercados abertos", diz. De acordo com Camargo Neto, com esses mercados, o Brasil poderá exportar 200 mil toneladas a mais por ano. Até novembro, as exportações brasileiras de carne suína atingiam, de acordo com a entidade, 561 mil toneladas. (Tatiana Freitas - AE)